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Com a proa voltada para Paranaguá
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![]() 04/02/2004
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Depois que deixamos para trás a Ilha de Santa Catarina o vento NE aumentou para uns 12 nós e seguimos numa orça folgada rumo à Ilha do Arvoredo. Quando estávamos no través da Ponta de Ganchos eu passei um rádio para a Marina de Ganchos para saber se o pessoal de Paranaguá estava por lá. Talvez iríamos pernoitar por ali. Mas como não havia ninguém da nossa turma por lá, decidimos seguir para Bombinhas para visitar o amigo Carlos, do veleiro Lendário. Por volta das 16:30 h, após passarmos pela ponta de Ganchos, o vento parou e girou rapidamente para Sul. Decidi rizar a mestra, pois era óbvio que a velocidade do vento seria crescente. Quando aproamos o barco no vento para realizar a manobra deu para sentir o quanto a sua força tinha aumentado, bem como o tamanho das ondas. A manobra foi feita com rapidez e logo retornávamos ao rumo norte, com o vento nos empurrando. O anemômetro marcava rajadas de 22 nós, como estávamos em popa, certamente a velocidade era bem maior descontando a velocidade do barco. Decidi então enrolar a genoa, deixando apenas 1/3 de sua área. O Musashi ficou bem trimado desta forma e seguimos voando baixo, dentro da cabeça da frente fria que chegara... O mar cresceu bastante e de vez em quando o barco subia com a onda mas a sua crista quebrava dentro do cockpit... Caramba, era uma água danada de gelada ! Neste ponto tratamos de vestir os agasalhos de mau-tempo pois a temperatura ambiente caiu bastante. O visual era impressionante : carneirinhos para todo lado, mas com um céu azul belíssimo.Logo alcançamos a Ilha das Galés e por volta das 17:30 h estávamos no través da Ponta de Bombas. Como o mar estava bem revolto procurei deixar uma boa lazeira da costa. Seguimos agora manobrando o barco para alterar o rumo na direção da Enseada de Bombinhas, que era nosso objetivo inicial. |
Mestra e genoa rizadas |
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O leitor experiente sabe que quando está se navegando com o tempo a direção da onda e vento nem sempre estarão no mesmo sentido que o rumo desejado. Neste ponto da viagem era preciso colocar o Musashi num rumo mais a bombordo da direção das ondas. Então a gente esperava o barco surfar a onda e quando estávamos no cavado eu rapidamente guinava a proa para o rumo correto. Fica nesta direção até que a próxima onda começasse a entrar, daí então voltava o barco para o seguir com a onda. Com este zig-zag o comandante consegue aos poucos ir levando o barco para o rumo desejado aproveitando a força da natureza a seu favor. Quem conhece aquela enseada sabe que no primeiro terço de sua entrada há uma pedra descoberta que precisa ser evitada. Eu já havia estudado a carta náutica da região antes de zarparmos e estava ciente de sua localização, inclusive podia acompanhá-la pelo GPS. Nesta hora valeu cada centavo investido na Blue Chart que revelou-se muito precisa. Explico : com o mar encrespado a pedra fica coberta pelas ondas ( pelo menos de onde estávamos não dava para enxergá-la ). Então um GPS com carta náutica digital ajuda bastante... Eu poderia entrar já rente a boca da enseada e seguir abrigado do vento próximo ao continente ou contornar a pedra por fora e subir no contra-vento para dentro da enseada até o cais de Bombinhas. Como era a primeira vez que eu navegava por ali fiquei em dúvida se não haveriam pedras ou perigos submersos próximo à costa não marcados na carta. Além disto com aquele mar havia uma boa possibilidade de derivarmos para cima da referida pedra. Preferi não arriscar e dei a volta... Quando tinha certeza de ter passado pela mesma, mudamos o rumo para subir de volta até trapiche de Bombinhas. Porém, para nossa surpresa, o barco não conseguia vencer o forte vento contra. Tentamos de 3 formas : apenas com a genoa, com genoa e mestra e com o motor. Nada funcionava ! O barco não dava seguimento, deixando o leme sem atuação. Além disto o mar estava nos levando para o costão sul da enseada. Como estávamos em 2 tripulantes, acredito que estávamos com pouco peso para fazer a escora necessária ao contra-vento para o Fast 230 poder vencer sua força próxima dos 30 nós. A situação era de risco para o barco e os tripulantes se continuasse tentando lutar contra a natureza. Então decidi voltar e sair logo de dentro daquela enseada, visando buscar abrigo no outro lado na Ponta de Porto Belo. O Wagner protestou, mas era a decisão mais adequada para o momento. Aí foi fácil... seguimos com asa de pombo armada, contornamos a Ponta de Porto Belo e, para minha surpresa, na pequena enseada que há antes de chegar na Ilha de Porto Belo haviam 3 barcos atuneiros enormes abrigando-se do mau-tempo também. Demos um tempo por ali antes de seguir para o Caixa d´ aço. Quando então iniciou-se uma chuva que fez o vento e o mar acalmarem em questão de poucos minutos. Incrível ! |
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| Liguei para o Carlos informando de nossa posição e que o
tempo estava melhorando. Decidimos então retornar e cumprir o objetivo de
chegar até o trapiche de Bombinhas. O mar estava liso, quase sem vento...
Seguimos no motor rapidamente até pararmos diante da cidade e amarrar o
Musashi numa poita ao lado do trapiche.
Enquanto arrumávamos a bagunça a bordo, o Carlos me ligou dizendo que tinha um banho quente e janta nos esperando em sua casa. Sua esposa Suzane preparou uma moqueca de peixe que juro por Deus não ter comido tal iguaria fazia anos !!! Tinha uns camarões pistola que pareciam peixe de tão grandes... Que pessoas maravilhosas... |
Musashi já amarrado em Bombinhas |
A beleza da cor da água da Enseada de Bombinhas |
Bombinhas é uma linda enseada, com ótima
praia para mergulho livre e muita badalação na cidade. Aproveitamos um
cyber-café para colocar os e-mails em dia e analisar a previsão do tempo
para os próximos dias. Esta revelou-se com ventos Sul e mar grosso para
mais uns 3 dias pelo menos. Decidimos então curtir a cidade e explorar a
região, visto que nosso abrigo era ótimo para este vento.
Uma boa pedida é fazer um curso de mergulho. Ali existem várias operadoras com cursos para todos os níveis e bolsos. Inclusive emprestei uma poita da operadora de mergulho Trek Dive, que gentilmente me deixou utilizar o ponto seguro para o Musashi.
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O Wagner precisou voltar para Curitiba pois
tinha compromissos familiares. Fiquei só a bordo, porém com meus livros
e o agito da cidade. Aproveitei para comprar alguns presentes para minha
família no centro comercial, que tem boas lojas. Bombinhas cresceu
bastante nos últimos anos, talvez perdendo o encanto original, mas
oferecendo boa infra-estrutura turística. O Carlos trabalha com passeios
diários a bordo do Lendário, ( uma linda escuna de 1947 de 60 pés ).
Ele me convidou para um dos passeios até a Ilha de Porto Belo, que
aceitei e gostei muito. O barco é uma delícia de se velejar e Ilha de
Porto Belo muito bonita com um interessante museu e bom restaurante.
Clic aqui para visitar o site do Lendário. |
| Uma curiosidade adicional foi uma
simpática tartaruga marinha que toda manhã nadava em volta do Musashi.
Quando perguntei para o pessoal se eles a conheciam, me informaram que eu
estava apoitado sobre uma lage e que esta era a morada do quelônio...
Muito ecológico !
Acho a região uma ótima pedida para abrigo. Embora não existam marinas, você tem alguns pontos abrigados para jogar a âncora e desfrutar da beleza da enseada. Aproveitei também para raspar o fundo do casco do Musashi. As cracas e algas já estavam tomando conta. Mais um pouco e o Ibama iria decretar o local como reserva ecológica... No último dia que fiquei na cidade convidei o Carlos e o Ruben ( que me emprestara a poita ) para darmos uma velejada com o Musashi. O tempo virou de repente para uma chuva chata, mas zarpamos assim mesmo visto que o céu estava aberto pertinho dali. Em 20 minutos escapamos da chuva e aí deu para curtir bastante. Deixei-os conduzir o Musashi para desfrutarem um pouco mais do passeio, afinal estavam em plena temporada trabalhando com seus barcos. Sair assim sem compromisso deve ter sido bacana para eles... Mesmo sendo um passeio curto, nos divertimos bastante nesta tarde. |
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![]() 13/02/2004 Sexta-feira |
Retornei de ônibus no domingo para casa.Durante a semana convidei mais 2 amigos para navegarmos até Paranaguá : Jacques Pitet, do veleiro La Liberté e Osvaldo Navarro, do veleiro Beluga. Ambos da Marina Oceania de Paranaguá. Conseguimos chegar em Bombinhas no final da tarde de quinta-feira. Infelizmente descobri que o vento NE impediria-nos de dormir a bordo apoitados onde estávamos. Decidi então zarpar imediatamente para o Caixa d´aço para podermos dormir bem para a viagem do dia seguinte, já ganhando assim algumas milhas. |
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Depois de uma noite tranqüila, zarpamos às 07:30 h para o
Capri. O NE continuou na faixa dos 18 nós o trajeto todo. O mar ficou
bastante picado em alguns momentos.
Com isso a viagem foi bastante cansativa, pois o barco bateu bastante, embora ventasse nós decidimos ligar o motor para ajudar a ganhar velocidade e vencer as ondas contra. A operação de abastecimento de combustível fica bastante complicada nesta condição de tempo. A tripulação teve que aprender malabarismo para não derramar muita gasolina no cockpit... Com o tempo não tem como não ficar mareado. Alcançamos a Ilha da Paz somente por volta das 22:30 h com um mar grosso e ventos de 24 nós em média. |
| Entrada do canal balizado à noite com mau tempo não é
muito fácil, pois a rota faz algumas curvas. Felizmente tem bom
calado.
Quase no final tivemos que sair um pouco do canal para dar passagem a um navio vinha em grande velocidade à nossa popa. Ao entrar na Baía da Babitonga o mar baixou e o vento amenizou um pouco. O problema foi chegar na entrada do canal do Capri. O banco de areia próximo à praia e a primeira bóia nos surpreendeu : o Musashi ficou irremediavelmente encalhado !!! |
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| Fizemos algumas tentativas no motor e com a mestra
levantada, porém nada que fizéssemos poderia nos tirar desta armadilha.
Joguei a âncora para não deixar o barco dar na praia e passei um rádio
pedindo auxílio para o Iate Clube. Felizmente o clube mantém um
marinheiro de plantão, que nos atendeu e disse que já estava vindo nos
socorrer. Neste ínterim, algumas lanternas começaram a clarear a praia.
Em uns 15 minutos haviam 12 pessoas com a água pela cintura ao lado do
Musashi, prontos para nos ajudar no que fosse possível. Este pessoal
estava acampado por ali e viu que precisávamos de apoio.
Pulei na água para poder avaliar melhor a situação. Confesso que me emocionei ao ver o meu veleiro batendo a quilha no fundo enquanto encalhado. Estávamos com cerca de 1 metro de água e o Fast 230 cala 1,40m. Após uma cansativa viagem durante o dia inteiro, não era o que esperava para nossa chegada. Muito menos o que merecia o valente Musashi depois de comportar-se tão bem no mar aberto. Me veio à cabeça a triste imagem de uma baleia encalhada na praia e me bateu um sentimento de remorso... Mas rapidamente tratei de afastar esta idéia pois tinha a missão de tirar meu barco e tripulação desta situação o quanto antes ! |
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Lembrança da baleia encalhada |
Assim que o marinheiro do iate clube ( Marcelo ) chegou com
uma pequena lancha, pedi para o Osvaldo soltar a adriça da vela mestra e
passar a sua ponta para o pessoal na água. Eles então puxaram o cabo
até o barco ficar adernado o suficiente para desencalhar. Com um outro cabo
amarrado em ambos os cunhos da popa do Musashi a lancha em minutos nos rebocou para
fora do banco de areia. A primeira bóia que baliza o canal estava a
poucos metros da gente.
Então soltamos o cabo de tração e a lancha nos guiou em segurança até o trapiche de visitantes do clube. Banho quente tomado e lanche preparado pelo Cabral do restaurante do clube às 00:30 h, caímos na cama para o sono dos justos... Meu último pensamento foi : "Caramba ! Nunca mais zarpo numa sexta-feira treze !" |
| No dia seguinte descansamos a manhã inteira. Durante
no almoço fiquei sabendo que na quinta-feira outro veleiro encalhara no
mesmo ponto. Na noite deste sábado foi a vez de um 40 pés pedir socorro.
A lição fica que para entrar ali à noite é melhor pedir apoio pelo
rádio. É um procedimento comum para o Iate Clube.
Tirei a tarde para revisar o sistema elétrico e conferir se não houve qualquer dano à quilha, leme e estrutura do Musashi. Felizmente apenas a ponta da quilha estava limpa das marcas das cracas devido ao atrito com a areia. Nada mais. O que reforça a qualidade da construção e segurança do Fast 230.
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| Também tive o prazer de encontrar pessoalmente o Carlos Dohler, do veleiro Maori, que havia me conhecido pela página do Musashi. Ele me contou que comprou o seu barco inspirado nas aventuras do Musashi. Fiquei feliz em saber que o site está cumprindo o seu objetivo principal : divulgar o estilo de vida que a vela proporciona. Talvez a gente esteja na direção certa. |
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![]() 15/02/2004 |
O vento NE andou rugindo o sábado inteiro quanto descansávamos no clube. Porém a previsão para domingo era tempo bom. Abastecemos os tanques de combustível, as baterias elétricas e nos preparamos para zarpar na manhã seguinte. |
| Deixamos o trapiche por volta das 06:30 h com um céu de
brigadeiro. Havia um vento NE de cerca de 8 nós. A saída da barra da
Baía da Babitonga desta vez foi um pouco mais agressiva com ondas de uns
2 metros levantando a proa do Musashi. Mas logo que alcançamos o mar
aberto o barco estabilizou e seguimos na vela numa orça folgada. Na
altura de Itacolomis o vento parou e continuamos o trajeto no motor
debaixo de um céu azul muito bonito.
Próximo à Ilha de Currais começou um vento Sul fraco. Abrimos as velas e seguimos de vento em popa. |
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| Para variar o tempo fechou rapidamente, bem como a
intensidade dos ventos que agora beiravam os 25 nós. Rizamos a mestra
inteiramente e deixamos apenas um pouco de genoa nos levar no mar grosso.
O Musashi voava debaixo daquele vento.
Utilizando a manobra de zig-zag ( só que desta vez quando mudava o rumo era para uma orça apertada, depois voltava para alheta ) fui me aproximando da bóia Nr. 1 do Canal da Galheta. Liguei para a central de praticagem de Paranaguá para checar se o canal estava aberto para a navegação, pois com aquele tempo a coisa poderia se complicar para nós. A operadora nos deu sinal verde e então continuamos nosso trajeto. |
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Quando chegamos nas bóia Nr 1 e 2 mal dava para ver as de
Nr 3 e 4 devido à forte chuva que caia. As ondas tinham crescido bastante
mas dava para encarar o desafio.
Percebi que a tripulação estava apreensiva, pois era uma experiência inédita. Estabeleci a meta de atingir cada par de bóia para não nos preocuparmos com o conjunto. Cada bóia vencida a gente soltava um "Hurra !!!" para comemorar e então seguíamos adiante. Assim o moral da tripulação ficou bem mais alto e confiante... Ao final do canal, ao passar pela Ilha do Mel e a Ilha da Galheta o mar baixou, bem como o vento. A chuva agora era apenas uma garoa. |
| Tive uma sensação muito boa de retornar para
casa, enquanto navegava na tranqüilidade da Baía de Paranaguá...
Passamos por Pontal do Sul e dobramos a Ponta do poço e Tenenge. Ao entrar no Canal da Ilha da Cotinga tínhamos um vento de través de cerca de 10 nós. Perfeito para uma velejada prazerosa. Continuando o Canal mudamos o rumo para alcançar a sub-sede do Iate Clube de Paranaguá já no final da Ilha da Cotinga. Até lá, o vento ficaria na alheta de bombordo e seguiríamos tranqüilamente. Então, para fechar a viagem à Florianópolis com chave de ouro, o Osvaldo sacou o seu sax e foi para a proa nos presentear com um show particular de Bossa Nova... Foi um momento muito especial. Por volta das 15:30 h já estávamos subindo a rampa da Marina Oceania. Estávamos em casa. Havia um brilho no olhar dos tripulantes que não se explica com
palavras. Obrigado Musashi ! |
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Show de Bossa Nova a bordo
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